curadoria
A tela emerge como um palimpsesto urbano: fragmentos de texto, algarismos e símbolos riscados se sobrepõem em camadas densas, reminiscentes de um muro antigo. Tons de concreto, preto-carvão e toques de vermelho-ferrugem dominam a paleta. A composição, deliberadamente fragmentada com traços ásperos e contornos irregulares, sugere um instante capturado, uma urgência que se desdobra no tempo.
Esta técnica de colagem e grafismo, assinatura do estilo 'raw urban street editorial', evoca a voz da rua, a expressão crua dos interstícios da cidade. Cada rasgo e linha borrada narra a passagem do tempo, a persistência de mensagens que resistem à obliteração. Há uma melancolia discreta, um senso de espera prolongada, manifesta na fusão e separação das camadas, como memórias que teimam em ressurgir, revelando a rugosidade da experiência ali depositada.
A obra, sem ilustrar diretamente, dialoga sutilmente com prazos e adiamentos. Blocos de texto inacabados e datas sobrepostas, sem clareza, sugerem lentidão burocrática e postergação. O calendário implícito, ora rasgado, ora em suspense, reflete uma temporalidade distorcida, onde o 'fim do ano' se projeta como horizonte incerto, constantemente redefinido. Questiona-se a percepção do tempo e da urgência, convidando à reflexão sobre as implicações da espera no tecido social e legislativo, sem jamais proferir uma palavra sobre a legislação espec