curadoria
Ao primeiro olhar, a obra se revela um campo de transição. No centro, uma figura de contornos esmaecidos, quase etéreos, parece se desfazer em partículas de memória, enquanto outras formas mais nítidas, ainda em gestação, começam a se agrupar. A paleta é dominada por sépia e grafite, pontuada por lampejos de um vermelho que pulsa. Elementos arquitetônicos de uma metrópole, fragmentados, servem de cenário, pilares de uma narrativa urbana em mutação.
Esta fusão de elementos, característica do surrealismo editorial, subverte a linearidade temporal. Não há fronteira clara entre passado e futuro, mas uma confluência fluida onde o legado se torna a matéria-prima do porvir. A técnica de sobreposição e translucidez confere à imagem qualidade onírica, como se observássemos uma memória em reescrita, um sonho coletivo em manifestação. Os traços, ora angulares, ora esmaecidos, carregam a tensão do debate político, a fricção entre permanência e renovação. O vermelho, não um grito, mas um murmúrio, sugere a paixão ideológica que resiste e se transforma.
A atmosfera de melancolia reverente, permeada por otimismo cauteloso, evoca a complexidade de um rito de passagem. A figura central, que se desmaterializa, não desaparece; suas partículas se integram ao tecido das novas presenças, sugerindo que as bases de uma trajetória se fundem àquilo que emerge. A reunião de faces, algumas reconhecíveis