curadoria
Ao primeiro olhar, a obra irrompe com a familiaridade de um mural urbano, ainda que as texturas do concreto sejam temperadas por um brilho inesperado. Um amontoado de doces, de forma irregular e tom caramelizado, repousa sobre uma superfície que evoca o asfalto ou uma parede antiga. As arestas são nítidas, quase cortantes, e o foco se detém na granulosidade do açúcar que adere à massa, criando um relevo sutil. Há uma paleta de ocres profundos, marrons queimados e um vermelho-tijolo que pontua o fundo, sugerindo a arquitetura de uma cidade vibrante e desgastada.
A técnica, deliberadamente rústica, ecoa a própria essência do fazer manual. Pinceladas carregadas e manchas intencionais simulam as marcas do tempo em um muro grafitado, onde cada camada de tinta sobreposta narra uma história não dita. A composição, que poderia parecer caótica, organiza-se em um equilíbrio precário, espelhando a resiliência. Há um diálogo contínuo entre a aspereza do traço e a delicadeza do objeto central, uma tensão entre o efêmero e o que perdura. O enquadramento, quase documental, convida à proximidade, a decifrar os segredos impressos na superfície, como quem lê um poema visual exposto na rua. É a estética do acaso e da intenção, da imperfeição que detém a verdade.
Nesta justaposição de mundos, a obra estabelece um elo com a persistência de uma prática ancestral. O doce, em sua aparente simplicida