curadoria
Um azul profundo se derrama pela tela, vasta extensão onde o olhar se perde. Ao centro, formas orgânicas de contornos imprecisos emergem e submergem, como raízes marinhas ou tentáculos de memórias antigas, dançando em gravidade aquática. Texturas que remetem a areia e corais fossilizados desenham uma cartografia onírica, um mapa de um mundo submerso onde o tempo se dobra.
A colagem digital, com toques pictóricos, justapõe e distorce, construindo uma realidade expandida. A paleta, de índigo a turquesa, é cortada por terras queimadas, criando ilhas de resistência em meio à fluidez. Este choque cromático evoca a tensão entre o enraizado e o movediço, o terreno e o aquático. O surrealismo aqui não desvia; reflete a complexidade da existência, amplificando vozes e símbolos que transcendem o factual.
Nessa paisagem, cada traço ecoa a jornada por reconhecimento. As linhas, que se interligam e fragmentam, sugerem fronteiras — visíveis e invisíveis — moldando identidades. As formas submersas e ascendentes dialogam com um território que, embora marinho, se enraíza na história e cultura. Não é ilustração literal, mas meditação sobre a persistência ancestral e a redefinição da soberania. A obra se torna um portal: certos direitos, como as ondas, são incessantes; a justiça, por vezes, emerge das profundezas para reescrever a geografia do poder.