curadoria
Ao primeiro contato, a obra apresenta-se como um véu noturno, onde contornos esfumaçados de silhuetas infantis parecem flutuar sobre um éter escuro. Uma luz difusa, quase interna, emana do centro, delineando presenças mais sentidas que vistas, como fantasmas de uma celebração há muito esquecida. A cena é um convite à penumbra, uma porta entreaberta para um espaço onde o tangível se dilui, e o olhar busca por significados em meio à névoa.
A técnica, com sua orquestração de indigos profundos e sépias envelhecidas, constrói uma atmosfera de sonho perturbador. As pinceladas, quase etéreas, conferem às figuras uma qualidade espectral, como se habitassem um limiar entre o mundo dos vivos e um além ancestral. Referências a gravuras de um passado distante e a lendas amazônicas tecem-se nas texturas, enquanto a composição fragmentada sugere memórias que se desfazem, ou talvez, se recompõem em novos significados. É um espelho para a alma, refletindo o que está oculto e convidando o observador a preencher as lacunas com seus próprios receios e maravilhas.
Neste universo de sombras e sussurros, a cultura paraense não se manifesta como um folclore vibrante ou uma festa mundana, mas como uma força telúrica, primordial. As crianças, ao invés de meros participantes de um espetáculo, transformam-se em guardiãs de ritos, seus gestos ecoando danças ancestrais que ressoam nas entranhas da flores