curadoria
Ao se aproximar, o observador é envolvido por uma correnteza de tons profundos. Índigo e sépia forjam uma paisagem quase noturna, onde fragmentos e aglomerados se insinuam, emergindo da densidade para logo desaparecerem na fluidez. Um movimento contínuo, uma dança entre a luz tênue e a sombra, permeia a tela, convidando a um mergulho inicial em sua atmosfera introspectiva.
A técnica, ecoando a aquarela sumi-ê e gravuras japonesas, revela delicadeza sob estrutura robusta. Cada pincelada é gesto, conferindo peso e leveza. A tinta se expande e contrai, simulando a inexorabilidade da água, a maleabilidade da nuvem, a aspereza da pedra, num balé de contrastes. A composição evoca efemeridade e transitoriedade das formas, a tensão entre o visível e o oculto, estimulando a reflexão sobre as camadas da realidade.
A obra não narra, mas evoca a essência: a fragilidade de estruturas sociais, a presença de elementos que corroem o tecido urbano, muitas vezes invisíveis. As 'rochas' que emergem da correnteza pictórica são metáforas para realidades ocultas que, subitamente, vêm à tona, reveladas pela luz. Um convite a perceber a cidade, onde fluxos contínuos escondem pontos de ruptura, e a clareza surge, dissipando sombras.