Canuto alerta sobre riscos de pacotes fiscais fora da meta
Ex-diretor do Banco Mundial vê perigo na flexibilização de gastos em ano eleitoral
O economista Otaviano Canuto, ex-diretor executivo do Banco Mundial e ex-vice-presidente do BID, manifestou preocupação com o lançamento de pacotes de gastos públicos fora das metas fiscais estabelecidas. Em entrevista ao Estadão, Canuto destacou que medidas como essas, sem o devido lastro orçamentário, podem comprometer a credibilidade da política fiscal e aumentar a percepção de risco por parte dos investidores. O especialista alertou que a falta de disciplina fiscal tende a pressionar os juros futuros e pode levar a uma deterioração das condições de financiamento do governo. Canuto também mencionou que, em um contexto de inflação ainda elevada e taxas de juros altas, a expansão de gastos sem contrapartida pode agravar os desequilíbrios macroeconômicos.
A crítica de Canuto não surge no vácuo. O timing coincide com a aproximação do período eleitoral municipal, quando tradicionalmente se ampliam os gastos discricionários. Os 'pacotes' mencionados atendem a uma lógica de curto prazo: prefeitos e governadores pressionam por recursos extras, enquanto o governo federal busca manter coalizões. O risco fiscal é o preço dessa moeda política. Historicamente, quando o Tesouro flexibiliza as regras, os mercados reagem com spreads mais altos e downgrades nas avaliações de crédito. Os incentivos são perversos: para os gestores locais, o benefício imediato supera o custo futuro; para o Planalto, a conta chegará depois das eleições. A fala de Canuto serve como alerta técnico, mas também como sinalização para o mercado - uma tentativa de frear a escalada de expectativas por mais gastos sem lastro.