Distância e custos elevam abstenção de brasileiros no exterior
62,7% dos eleitores aptos no exterior não votaram no primeiro turno de 2026, marcando aumento de seis pontos percentuais em relação a 2022.
A distância dos centros de votação é o principal fator que afasta os brasileiros residentes no exterior das urnas nas eleições presidenciais. No primeiro turno das eleições de 2026, 62,7% dos eleitores aptos no exterior não compareceram para votar, um aumento de seis pontos percentuais em relação a 2022. Isso representa mais de 574 mil pessoas, quase o triplo da abstenção registrada no Brasil, que foi de 21%. Além da distância, a apatia política e o esquecimento de transferir o título de eleitor também contribuem para essa alta abstenção.
O Brasil realiza eleições presidenciais no exterior desde 1989, quando cerca de 18,5 mil brasileiros estavam aptos a votar fora do país. Hoje, esse número chega a 916,5 mil, com votação organizada em 146 postos consulares e embaixadas distribuídos em 167 locais de votaçãofontes históricas. Apesar disso, o acesso às urnas pode ser custoso em termos de tempo e dinheiro, como no caso da escritora Bruna Dantas Lobato, que teve que viajar cerca de dez horas de carro e gastar US$ 400 para votar em Chicago.
Iniciativas como a plataforma 'Voto Lá Fora', criada pelo brasileiro Pedro Morel Rosa, tentam facilitar o processo oferecendo caronas e hospedagem para eleitores que precisam se deslocar longas distâncias para votar. Até o momento, mais de 900 pessoas já se cadastraram na plataforma.
A alta abstenção dos brasileiros no exterior nas eleições de 2026 não é apenas uma questão logística, mas um sintoma de um problema maior: a desconexão política entre o governo brasileiro e sua diáspora. O aumento de seis pontos percentuais na abstenção em relação a 2022 sugere que o esforço para engajar os eleitores no exterior está falhando. A logística complexa e os custos elevados para votar refletem uma falta de priorização do voto externo, que historicamente tem sido tratado como um apêndice do processo eleitoral.
O fato de o Brasil ter mais de 900 mil eleitores aptos no exterior, mas apenas 146 postos de votação, revela uma infraestrutura inadequada para atender a essa população. A iniciativa 'Voto Lá Fora', embora meritória, é um paliativo que não resolve o problema estrutural. O governo poderia investir em tecnologia para viabilizar o voto remoto ou ampliar o número de locais de votação, mas isso exigiria vontade política e recursos.
A distância geográfica também reflete uma distância política. Muitos brasileiros no exterior sentem-se desconectados da realidade do país, e o voto presencial em locais distantes apenas reforça essa sensação. A apatia política mencionada na reportagem é, em parte, um reflexo dessa desconexão. Enquanto o governo não priorizar o engajamento da diáspora, a tendência é que a abstenção continue crescendo, especialmente em um cenário onde o voto no exterior é visto como menos relevante para o resultado final das eleições.