Jorge Furtado transforma voyeurismo em espelho social em nova comédia
Em 'Muito Prazer', cineasta recria assinatura entre sagacidade e denúncia, mas atualiza o olhar para era dos algoritmos
A investigação que a matéria não cobriu. Conexões, contexto histórico, fontes extras.
A comédia em Jorge Furtado nunca foi disfarce, mas lente. De 'Ilha das Flores' (1989) a 'Saneamento Básico' (2007), seu humor ácido exponenciava descompassos sociais. Em 'Muito Prazer', longa que estreia esta semana, o diretor mantém a equação entre leveza e crítica, mas troca lixões por motéis e algoritmos. O filme acompanha Daniel de Oliveira e Luísa Arraes como gerentes que monetizam gravações íntimas de hóspedes — premissa que poderia cair no escracho fácil, mas que Furtado trata como metáfora da economia de atenção. 'A pornografia sempre seguiu tecnologias', observa o cineasta, referindo-se aos 30% do tráfego digital dedicado ao gênero. Se antes seus personagens faziam cinema para denunciar, agora produzem pornografia para sobreviver. O paralelo entre arte e exploração nunca foi tão inquietante.