Leilão de baterias no Brasil atrai 296 GW em projetos, mas demanda é 60 vezes menor
Discrepância entre oferta e procura revela estratégia de reserva de mercado no setor elétrico
O primeiro leilão de baterias para o sistema elétrico brasileiro recebeu 6.091 projetos cadastrados, totalizando 296,81 GW de potência - um recorde para o setor elétrico. O volume supera em mais do que o dobro o leilão de segurança energética de março, que registrou 120 GW em projetos. Apesar do alto número de inscrições, a demanda estimada é de apenas 2 GW a 5 GW, indicando disputa acirrada. O leilão será dividido em duas etapas: em 2 de dezembro para projetos com requisitos mínimos de nacionalização e em 4 de dezembro para todos os projetos sem exigência de conteúdo nacional. Do total, 4.939 projetos (245,6 GW) se inscreveram para ambas as etapas, 357 apenas para a primeira e 795 exclusivamente para a segunda. O Nordeste concentra 71,1% dos projetos, beneficiado por bônus locacional, seguido por Sudeste (18,8%), Sul (5,1%), Centro-Oeste (3,4%) e Norte (1,6%). A EPE destacou o elevado interesse no segmento e o papel estratégico da tecnologia para o país, facilitado pelas características modulares dos projetos e ausência de exigências ambientais nesta fase.
A avalanche de cadastros esconde uma corrida por posicionamento estratégico. Com demanda estimada em apenas 1% da oferta, o excesso de projetos revela um jogo de reserva de mercado: grandes players se multiplicam em cadastros para saturar a concorrência e garantir fatias no futuro leilão. A concentração no Nordeste não é acidental - o bônus locacional serve de cortina de fumaça para beneficiar conglomerados já instalados na região, que dominam 70% da capacidade eólica nacional. As duas etapas do leilão criam uma armadilha regulatória: a primeira data com requisitos de nacionalização favorece joint-ventures com fabricantes chinesas, enquanto a segunda abre espaço para importação pura. O timing é suspeito: em 2027 vencem os contratos de térmicas a gás, e as baterias surgem como substituto estratégico para manter o controle corporativo sobre a segurança energética. Os 15 anos de contrato garantem renda fixa longeva em um setor onde usinas eólicas e solares já operam com margens cada vez mais estreitas.