Mercado de usados desacelera enquanto elétricos sofrem depreciação recorde
Índice do BV mostra estabilização geral de preços, mas elétricos usados perdem 46% do valor em apenas três anos
A investigação que a matéria não cobriu. Conexões, contexto histórico, fontes extras.
O mercado de carros usados começa a mostrar sinais de desaceleração no segundo semestre de 2026, com o índice IBV Auto registrando queda de 0,01% em agosto - a menor variação mensal desde abril de 2024. Embora os preços tenham ficado praticamente estáveis, o movimento representa uma perda de fôlego após alta de apenas 0,07% em julho. Nos oito primeiros meses do ano, a valorização acumulada foi de 3,55%, abaixo dos 3,74% do mesmo período em 2025. Em 12 meses, a taxa caiu de 6,10% para 5,12%, com tendência de nova queda nos próximos meses.
Roberto Padovani, economista-chefe do BV, atribui a desaceleração a fatores macroeconômicos e do setor automotivo: 'A Selic em patamar restritivo, a desaceleração da atividade econômica e a forte concorrência no mercado de veículos novos explicam esse movimento, ainda que com defasagem'.
O cenário é mais dramático para os veículos elétricos usados, que acumulam depreciação de 46,15% entre modelos 2023 - mais que o dobro da perda de valor dos carros a combustão (21,72%). A contradição aparece justamente quando os elétricos ganham mercado entre os novos, representando 22% das vendas em julho e superando em 21% todo o volume de 2025.
A aparente estabilização do mercado de usados mascara uma guerra de interesses entre três grupos: montadoras pressionando preços de novos, bancos segurando crédito, e consumidores adiando trocas. A Selic a 7,5% cria um efeito tesoura - encarece financiamentos enquanto reduz poder de compra. As montadoras, por sua vez, aceleram a obsolescência programada dos elétricos: cada novo lançamento com maior autonomia e tecnologia desvaloriza os modelos anteriores em cascata.
A depreciação acelerada dos elétricos usados (46% contra 21% dos térmicos) revela o jogo de xadrez das montadoras. Ao baixarem agressivamente preços dos novos - estratégia viável pelos subsídios governamentais à eletrificação -, criam um vácuo no mercado de usados. O movimento beneficia as grandes montadoras globais (que têm escala para absorver margens menores) em detrimento das concessionárias independentes de usados.
O timing não é acidental: a desaceleração coincide com o início do ciclo de renovação de frotas corporativas, quando montadoras precisam liquidar estoques de seminovos. Os dados do BV servem como termômetro para ajustar estratégias de precificação - uma queda mais acentuada forçaria liberação de crédito, enquanto estabilidade permite manter margens.