O pragmatismo místico de Gilberto Gil em livro que desmonta a aura de unanimidade
Perfil analítico de Tom Cardoso revela as contradições políticas e familiares do artista, mostrando um Gil mais calculista do que a imagem pública sugere
A investigação que a matéria não cobriu. Conexões, contexto histórico, fontes extras.
O jornalista Tom Cardoso desmonta a aura de santo laico que cerca Gilberto Gil em 'Nem tanto esotérico assim: seis vezes Gil'. Através de seis ensaios temáticos, o livro expõe as engrenagens de um artista que sempre soube navegar entre o misticismo performático e o cálculo político pragmático. A análise mais contundente revela o choque entre o filho da Tropicália, perseguido pela ditadura, e o pai médico que assinou atas de apoio ao golpe de 1964 e ao governo Médici - contradição fundadora que moldou a capacidade de Gil de dialogar com espectros opostos. Cardoso mostra como essa herança familiar se desdobrou nas alianças do artista com Sarney nos anos 1980, FHC nos 1990 e Lula nos 2000, sempre com a mesma destreza com que transita entre gêneros musicais. Longe de ser uma hagiografia, o livro ilumina a maestria de Gil em cultivar ambiguidades - talvez sua verdadeira obra-prima.