Paul Schrader expõe as rachaduras do iluminismo em filme sobre culpa e desejo
Em 'The Basics of Philosophy', veterano do cinema americano questiona os limites da razão para resolver conflitos morais
Paul Schrader persiste em sua obsessão por homens atormentados, mas em 'The Basics of Philosophy' apresenta uma variação crucial: aqui, o tormento é epistemológico antes de ser moral. O filme — exibido fora da competição principal em Veneza — usa a figura de um professor de filosofia (Jack Huston) para questionar se a razão pode realmente redimir nossos piores instintos. O personagem, especialista em Espinoza, coleciona contradições: prega a ética enquanto carrega culpa por abuso sexual no passado, defende o determinismo racionalista mas vive em negação sobre sua própria sexualidade. Schrader opera no registro B que domina desde 'American Gigolo': há uma deliberada aspereza estética que colide com o tema elevado, como se o diretor dissesse que questões humanas complexas não cabem em embalagens nobres. O risco está na caricatura — algumas cenas beiram o melodrama — mas quando funciona, o filme alcança uma crueza que filmes mais polidos não ousariam. Num momento em que o cinema debate representação e redenção, Schrader oferece um anti-herói que desafia qualquer arco narrativo confortável.