Promoção de cinema em São Paulo: democratização ou tática desesperada?
Semanas de descontos revelam crise estrutural das salas diante do streaming e estratégias de fidelização que pouco mexem na equação do hábito cultural
O preço simbólico de R$ 10 para ingressos de cinema em São Paulo - estendido até para salas premium como IMAX - parece gesto generoso, mas esconde cálculo preciso: as redes precisam repovoar poltronas que ficaram vazias mesmo após a pandemia. Os filmes em cartaz (do blockbuster "Homem-Aranha" à comédia nacional com Martelli e Guimarães) são os mesmos que lotariam sessões em qualquer época, o que sugere que a ação não visa descoberta cinematográfica, mas manutenção de fluxo de caixa. A indústria exibidora tenta, com descontos ocasionais, criar o hábito que o streaming já roubou: sair de casa para ver nas telonas o mesmo conteúdo que em dois meses estará disponível no sofá. O paradoxo é cruel: para sobreviver, as salas precisam baratear justamente as experiências (IMAX, 4DX) que justificariam seu preço premium. Enquanto isso, o verdadeiro cinema autoral - aquele que depende de bilheteria para existir - segue ausente da promoção.