Ratinho e a performatividade do preconceito: quando o humor vira casuísmo institucional
Denúncia por homofobia revela como programas populares ainda tratam identidade como piada pronta
O SBT repete um roteiro conhecido: Ratinho faz piada com marcadores de identidade (desta vez, o cabelo loiro do cantor Tiago Piquilo), gera polêmica, e a emissora colhe os frutos da audiência conflituosa. O timing é sintomático — semanas após a Globo exibir especial sobre diversidade, a concorrência opta pelo caminho oposto: a homofobia como espetáculo. O que parece deslize isolado é estratégia de mercado. Programas populares brasileiros há décadas monetizam a ridicularização de minorias, equilibrando-se no limite do juridicamente aceitável. A queixa-crime no MP-SP é menos sobre uma frase específica e mais sobre o modelo de negócios que transforma preconceito em commodity midiática. Enquanto o entretenimento tratar identidade como recurso descartável, estaremos condenados a repetir esse ciclo: ofensa, comoção superficial e reinício do processo.