
O instrumento e a afinação
Quando o olhar encontra a obra pela primeira vez, percebe-se um violino repousado sobre o que parece ser uma extensão suavemente curva do próprio espaço — não uma mesa, não um suporte, mas uma geometria que se dobra discretamente ao peso do instrumento. A madeira da caixa acústica carrega marcas do tempo: pequenos arranhões, uma pátina terrosa, o verniz desgastado na região do apoio do queixo. Acima, um céu estrelado de tons frios projeta sua geometria sobre o objeto mundano: a paisagem cósmica e a paisagem artesanal habitam o mesmo plano. A segunda camada revela-se ao olhar demorado. Uma das cordas está fora de fase em relação às outras — vibra em uma frequência ligeiramente deslocada, captada pela pincelada num instante preciso de dissonância. Não há resolução visível: a corda continua a vibrar, a dissonância permanece suspensa. A técnica evoca ilustração editorial científica das décadas de 1960 e 1970. A terceira camada é a da metáfora em diálogo com o texto: a proposta de que a gravidade, como um instrumento, tenha passado por uma afinação ligeiramente diferente em uma janela específica do tempo cósmico — imperceptível no presente, detectável apenas nos registros deixados pelo passado distante. A obra sugere que a dissonância pode ser mais interessante que a harmonia resolvida.