curadoria
A tela revela um leito aquático de azuis profundos e cinzas. Pinceladas abruptas de amarelo e vermelho atuam como sinais intermitentes, pontuando a cena. Elementos figurativos, quase espectrais, emergem ou afundam, tecendo uma dança entre presença e ausência. Uma estrutura disforme, que remete a uma rede, ocupa o centro, mas sua vacuidade é notável, sem capturas visíveis. Há uma quietude tensa, um momento suspenso onde algo crucial se insinua, mas não se concretiza.
A técnica, um hibridismo entre surrealismo onírico e acidez editorial, distorce a realidade para expor suas fissuras. A assimetria da composição e a justaposição de texturas criam um estranhamento deliberado. A paleta, sóbria nos fundos, irrompe em explosões cromáticas que simulam urgência, desorientando o olhar. Não se busca a representação, mas a evocação de uma falha sistêmica, onde o limite entre o tangível e o etéreo se esvai.
Nesse universo pictórico, a 'pescaria' encontra sua metáfora visual. A rede, ao centro, surge porosa e ineficaz; o que deveria ser contido, escapa. As águas turvas, o rio que reluta em revelar segredos, simbolizam a opacidade e a dificuldade em discernir a verdade. A crítica se manifesta na ausência, na inoperância de mecanismos que se pretendem justos. A obra não acusa, mas expõe a fragilidade dos processos de escrutínio, onde a clareza é um ideal longínquo, deixando o observador com a