curadoria
O olhar é atraído por uma massa densa e informe, quase monolítica, que se ergue no centro. Sua superfície, rugosa e com sulcos, evoca uma estrutura orgânica petrificada. Cores escuras – piche e argila – absorvem a luz, criando sombras absolutas. Um peso esmagador domina, algo que se expande e contrai lentamente. Apenas a sugestão de um volume silencioso, inexorável, preenche o espaço.
A técnica, com sua paleta restrita de cinzas profundos, marrons terrosos e verdes pálidos, tece uma atmosfera de sonho sombrio. Pinceladas, ora densas, ora translúcidas, geram texturas que convidam ao tato. O surrealismo onírico surge na distorção da forma, na ausência de horizonte claro. O chiaroscuro barroco imprime dramaticidade à luz que emerge. A composição, claustrofóbica, comprime o espaço, evocando aprisionamento, um labirinto interno sem saídas. Angústia reside em sua beleza trágica e quietude.
Esta obra não ilustra; convida à introspecção sobre as sombras que se acumulam. A massa central, sem contornos, simboliza a acumulação silenciosa: substância adicionada gota a gota, escolha a escolha. É o reflexo de hábitos que se cristalizam em paisagens internas de um corpo em transformação. Não há julgamento, mas a constatação visual da gravidade – física e existencial – que emerge quando o equilíbrio se rompe. É o eco da escolha humana, materializado num volume abstrato, denso de consequência