curadoria
A obra se revela como uma paisagem aquática oriental, onde rios de índigo e sépia serpenteiam sob um véu de bruma. A composição fluida, com montanhas distantes que se dissolvem no horizonte, guia o olhar por meandros e confluências. Uma quietude aparente na superfície convida à contemplação, mas insinua movimentos ocultos e profundezas insondáveis. As pinceladas gestuais, ora vigorosas, ora translúcidas, exploram a essência da água: sua capacidade de moldar, erodir e ocultar. A técnica Sumi-e, com aguadas e ausência de contornos rígidos, cria uma atmosfera onírica, evocando a força silenciosa da natureza e a impermanência, um eco da sabedoria ancestral. Nessa dança de pigmentos, a obra sussurra sobre as correntes invisíveis que movem sistemas. Os rios, nem sempre límpidos, carregam segredos e sedimentos de desvios, de tramas tecidas nas sombras que cooptam a clareza. A névoa é o véu sobre o que se esconde, sobre interesses que, como raízes submersas, nutrem emaranhados. É um convite à reflexão sobre a fluidez da ética e a erosão silenciosa da integridade, onde o poder, como a água, encontra caminhos, nem sempre virtuosos, buscando o menor esforço para fluir.