curadoria
Ao primeiro contato, a obra se revela como um palimpsesto de superfícies. Cinzas chumbo e ocres queimados dominam, com veios de um verde-eucalipto desbotado. Blocos de textura remetem a concreto rachado e muros pichados, sobrepostos. Figuras quase indistintas, espectros urbanos, emergem e se dissolvem. Uma gravidade puxa o olhar para a aspereza do material, para o que foi deixado, um cenário que respira história e abandono.
A técnica, visceral e sem polimento, evoca a estética das ruas, onde a arte nasce da urgência. Pinceladas gestuais, ora agressivas, ora sutis, imitam o sopro do tempo nos muros. Estênceis incompletos e caracteres rasurados mesclam-se a manchas orgânicas, flertando com grafite e expressionismo. A fragmentação dos planos e a ausência de perspectiva desorientam, convidando à exploração de uma memória coletiva retalhada. A aspereza das texturas é declaração, eco da fricção e da resistência intrínseca à matéria.
Nesse emaranhado de formas, a obra dialoga com a narrativa. Linhas verticais, grafites ou rachaduras, sugerem a uniformidade do eucalipto. Sob essa grade imposta, formas espectrais adquirem o peso de silhuetas ancestrais, presenças que habitam a terra antes de sua reorganização. O embate é retratado na quietude tensa das texturas corroídas, na resistência da pedra e da terra que se recusam a ser apagadas. A monocultura se impõe, mas raízes profundas dos p