A família Roosevelt e a quase anexação do Acre
No início do século 20, um consórcio incluindo o primo do presidente dos EUA quase governou parte do atual território brasileiro.
No início do século 20, as selvas do Acre, então pertencentes à Bolívia, eram ricas em recursos naturais, especialmente borracha. Sem capacidade para governar efetivamente a região, o governo boliviano decidiu entregar sua administração por 30 anos ao Bolivian Syndicate, um consórcio de investidores estrangeiros sediado em Nova York. Este grupo, que incluía empresas como Cary & Withridge, United States Rubber Company e Export Lumber, recebeu amplas prerrogativas governamentais, incluindo o controle sobre receitas, exploração de recursos e até a manutenção de forças de segurança.
Entre os investidores estava William Emlen Roosevelt, banqueiro de Nova York e primo próximo de Theodore Roosevelt, então presidente dos EUA. A presença de William Emlen Roosevelt levantou preocupações sobre o envolvimento do governo americano no negócio. Documentos da época mostram que o secretário de Estado John Hay enviou uma carta a Theodore Roosevelt alertando sobre a percepção de que o Bolivian Syndicate poderia ser visto como um instrumento do governo americano, especialmente pelo Brasil e pela Bolívia.
O caso do Bolivian Syndicate revela uma prática comum na história das relações internacionais: o uso de empresas privadas como extensões do poder estatal. O envolvimento de William Emlen Roosevelt, primo do presidente Theodore Roosevelt, sugere uma estratégia de influência indireta dos EUA sobre territórios ricos em recursos. A Bolívia, incapaz de administrar o Acre, optou por uma solução que entregava controle a um consórcio estrangeiro, mas acabou por criar um cenário geopoliticamente delicado.
O alerta de John Hay sobre a percepção de interferência americana mostra que os EUA estavam cientes dos riscos de serem vistos como imperialistas. A carta de Hay pode ser interpretada como um esforço para manter uma aparência de neutralidade, enquanto permitia que interesses privados americanos operassem. Este episódio antecipa práticas modernas, como o envolvimento de Jared Kushner em negociações internacionais enquanto mantinha interesses comerciais no Oriente Médio, sugerindo uma continuidade na fusão entre política e negócios nos EUA.