Armas e contratos: a engrenagem da violência política nos municípios brasileiros
Estudo mostra que 46% dos assassinatos de políticos têm ligação com disputas por orçamento público
Um estudo liderado pela socióloga Angela Alonso, da USP e ex-presidente do CEBRAP, aponta que o aumento do acesso a armas no Brasil tem relação direta com o crescimento da violência política no país. Entre 2003 e 2023, 760 políticos e ativistas foram assassinados em conflitos que vão desde disputas por terras até gestão de recursos públicos. O relatório, publicado pela Global Initiative Against Transnational Organized Crime, mostra que 60% das vítimas não ocupavam cargos políticos quando foram executadas, e 46% dos assassinatos de políticos tinham ligação com crises locais ou contratos públicos. Alonso destaca que os períodos eleitorais concentram o maior número de casos, e que as disputas locais por recursos estatais em pequenos municípios são o principal motivador da violência, agravada pela maior circulação de armas nos últimos anos. A socióloga está finalizando um observatório sobre violência política que será lançado no segundo semestre, em parceria com Harvard.
O estudo revela uma engrenagem de violência que vai muito além da polarização nacional. Nos municípios pequenos, orçamentos públicos são campos de batalha onde contratos valem mais que vidas. A pesquisa mostra que quase metade dos assassinatos políticos tem ligação direta com disputas por contratos públicos — uma cifra que expõe a privatização da política local. O timing eleitoral não é coincidência: é quando se redefine quem controla o erário. A facilitação do acesso a armas nos últimos anos apenas armou conflitos que sempre existiram. O dado mais revelador? Mais da metade das vítimas nem sequer ocupava cargos — eram meros obstáculos ao controle de recursos. O observatório em construção é sintomático: a academia internacional já enxerga o Brasil como laboratório de violência política organizada, um capital político que se disputa a tiros.