Brasil cede à pressão chinesa após tarifas dos EUA
Virada em acordo Mercosul-China expõe custos do protecionismo americano
O governo brasileiro alterou sua posição sobre o acordo comercial entre Mercosul e China após duas rodadas de tarifas impostas pelos EUA. Durante conversa telefônica no domingo (26), os presidentes Lula e Xi Jinping concordaram em acelerar as negociações com 'as flexibilidades necessárias', segundo nota do Planalto. A mudança contrasta com a postura histórica do Brasil, que por uma década bloqueou avanços no tema.
O acordo era defendido principalmente pelo Uruguai, que em 2021 encomendou estudo mostrando como o protecionismo do bloco prejudicava economias menores. O Mercosul tem a menor razão entre comércio exterior e PIB entre blocos de integração (14,9% contra média global de 33%). Brasil e Argentina viam a iniciativa como ameaça, temendo triangulação de produtos chineses via Uruguai.
A virada ocorre cinco meses após o novo presidente uruguaio, Yamandú Orsi, levar comitiva de 150 pessoas à China e assinar declaração conjunta pedindo início imediato das tratativas. O governo brasileiro agora encara o acordo como alternativa às tarifas americanas, embora setores industriais temam impacto negativo.
A mudança brasileira segue cálculo geopolítico preciso: as tarifas americanas criaram janela para Pequim onde a coerção econômica de Washington empurra parceiros para a órbita chinesa. O timing é revelador - bastaram dois movimentos protecionistas dos EUA para desbloquear negociação que resistia há uma década.
Os incentivos convergem: China ganha acesso privilegiado ao mercado sul-americano justamente quando os EUA fecham suas portas; Brasil mitiga efeitos do 'tarifaço' com novo destino para exportações; Uruguai vence resistência histórica. O custo será pago pela indústria nacional - as 'flexibilidades' mencionadas são eufemismo para concessões que setores como aço, têxteis e automóveis tentarão limitar.
O movimento também expõe fratura no Mercosul: o bloco que se unia para resistir à pressão chinesa agora a abraça por falta de alternativas. A velocidade da virada brasileira sugere que a postura anterior era menos convicção estratégica que barganha temporária, aguardando momento oportuno para ceder.