Condenação de ex-presidente equatoriano revela realinhamento geopolítico
Caso Lenín Moreno expõe tensões entre herança correísta e nova orientação pró-EUA
A Justiça do Equador condenou o ex-presidente Lenín Moreno a cinco anos de prisão por suborno em um esquema de corrupção ligado à construção da hidrelétrica Coca Codo Sinclair, obra da chinesa Sinohydro. A sentença, divulgada nesta sexta-feira (28), também atingiu a esposa e familiares de Moreno, com penas de até três anos por cumplicidade.
Segundo a Procuradoria, a família do ex-presidente teria recebido cerca de US$ 1 milhão em propinas da Sinohydro, que pagou um total de US$ 76 milhões em subornos (4% do valor da obra). Moreno negou as acusações, afirmando nunca ter recebido dinheiro da empresa chinesa, e anunciou recurso.
O caso envolve 20 acusados, incluindo chineses e um ex-embaixador da China no Equador. Moreno foi vice de Rafael Correa (2007-2013), período de concepção do projeto, mas rompeu com o ex-aliado após assumir a presidência em 2017, migrando para uma postura mais alinhada aos EUA. Correa, exilado na Bélgica, foi condenado à revelia em 2020 por outro caso de corrupção.
A condenação de Lenín Moreno não é um episódio isolado, mas o desfecho previsível de uma guerra política entre o ex-presidente e seu antigo mentor, Rafael Correa. O timing é revelador: enquanto Correa busca retorno ao cenário político equatoriano, a sentença elimina seu principal rival interno da era pós-correísmo.
A participação chinesa no caso não é acidental. A Sinohydro, estatal chinesa, operava sob o paradigma da 'diplomacia de infraestrutura' que marcou a era Correa. O fato de os subornos terem ocorrido durante o vice-presidente de Moreno, mas apenas serem punidos nove anos depois, sugere um cálculo geopolítico: a China já não depende do Equador como antes, permitindo ao judiciário local agir contra seus parceiros históricos.
Internamente, o caso serve tanto para o governo atual se distanciar da herança correísta quanto para enviar um sinal à administração Biden: Quito está disposto a revisar contratos da era chinesa, em linha com a nova estratégia norte-americana de contenção à China na região. A seletividade é evidente - enquanto executivos chineses são citados, não há menção a repatriação dos US$ 76 milhões.