Deslizamentos no Nepal revelam tensões geopolíticas
Resgate de sobreviventes após dez dias expõe disputa por influência na região
Equipes de resgate nepalesas conseguiram retirar um homem chinês que estava preso desde o deslizamento de 26 de agosto no projeto hidrelétrico Alto Trishuli-1, informou o porta-voz do Exército do Nepal, Raja Ram Basnet. No mesmo dia, uma mulher nepalesa de 64 anos foi resgatada dos escombros de sua casa, soterrada pela lama no distrito de Nuwakot. Ela foi levada de helicóptero a Katmandu para receber tratamento. Na sexta-feira (4), os serviços de emergência resgataram com vida dois trabalhadores que estavam presos no túnel da hidrelétrica Trishuli-3. Os sobreviventes, Sanjay Shah e Kabir Maharjan, serão levados para um hospital em Katmandu. Dezenas de socorristas nepaleses, com a ajuda de especialistas da Índia, China e Coreia do Sul, trabalham há dias na escavação de vários túneis soterrados após a enxurrada. As autoridades estimaram inicialmente que cerca de cem trabalhadores poderiam estar presos apenas no túnel de Trishuli-3.
O resgate de sobreviventes após dez dias de deslizamentos no Nepal revela uma engrenagem geopolítica complexa. A presença de um cidadão chinês resgatado no projeto hidrelétrico Alto Trishuli-1 não é coincidência: a China tem investido pesadamente em infraestrutura energética no Nepal como parte de sua iniciativa Belt and Road, buscando consolidar influência na região. A ajuda técnica de especialistas da Índia, China e Coreia do Sul reflete a disputa por soft power na área. A Índia, tradicional influenciadora no Nepal, vê com desconfiança a crescente presença chinesa. O timing dos resgates também é estratégico: ocorre em um momento de fragilidade política no Nepal, onde o governo precisa demonstrar eficiência após críticas por lentidão nas ações de resgate. Os projetos hidrelétricos, embora essenciais para o desenvolvimento econômico do país, têm sido criticados por ambientalistas e comunidades locais, que os veem como prioritários apenas para interesses estrangeiros e não para os nepaleses.