Fundo britânico defende manutenção do modelo extrativista de minérios no Brasil
Executivo questiona necessidade de processamento local enquanto fundos lucram com exportação de commodities brutas
O executivo Milson Mundim, do fundo britânico Appian Capital, defende que o Brasil não precisa necessariamente processar todos os minerais críticos que produz para ter sucesso econômico. Ele argumenta que países como Austrália e Canadá prosperam focando na mineração sem desenvolver etapas avançadas de processamento. Mundim cita como exemplo a Atlantic Nickel, empresa do grupo que atua apenas na extração e primeiro beneficiamento de níquel na Bahia, com rentabilidade superior aos clientes que processam o mineral. Segundo ele, em algumas cadeias como o cobre, 80% do valor está no minério concentrado, enquanto etapas posteriores têm margens menores. O executivo questiona a ideia de que processamento sempre agrega mais valor, citando estudos do Banco Mundial que mostram falhas em políticas de industrialização mineral forçada. Dados de 2023 mostram que apenas 5% do lítio e menos de 40% do níquel extraídos no Brasil são processados internamente.
A fala estratégica do executivo da Appian Capital revela o jogo de interesses no setor mineral. Fundos de private equity como a Appian têm incentivos claros para defender o status quo da exportação de minérios brutos: investimentos em extração são menos complexos, com retornos mais rápidos e previsíveis do que em processamento. Ao citar Canadá e Austrália, Mundim omite que esses países já possuem infraestrutura industrial consolidada em outros setores. O timing é suspeito - o debate sobre processamento local ganha força globalmente, com EUA e Europa subsidiando cadeias produtivas estratégicas. A Appian, que possui minas no Brasil, se beneficia do atual modelo de exportação de commodities sem valor agregado. O argumento do Banco Mundial citado data de 2015, antes da atual corrida por soberania mineral. A matemática é clara: quem controla o processamento controla a cadeia de valor - e os fundos preferem o modelo extrativista de margens certas a apostar em industrialização complexa.