Milei constrói rede de vigilância em massa na Argentina, revela Anistia
Investimento em tecnologia de monitoramento coincide com onda de protestos contra reformas econômicas
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O governo argentino de Javier Milei ampliou significativamente suas capacidades de vigilância em massa nos dois primeiros anos de mandato, segundo relatório da Anistia Internacional divulgado nesta semana. O documento 'Estado de Vigilância' detalha investimentos de US$ 1,2 milhão em tecnologias como rastreamento de mídias sociais, reconhecimento facial e drones com câmeras térmicas.
Entre os equipamentos adquiridos estão 69 drones e 11 estações terrestres com capacidade de rastreamento automatizado e transmissão de imagens em tempo real. As novas ferramentas foram usadas para monitorar os 300 protestos registrados em 2025, em um contexto de forte insatisfação popular com medidas de austeridade e reformas trabalhistas.
A Anistia alerta que o sistema cria um 'efeito inibidor' sobre direitos fundamentais, com potencial para desencorajar protestos e limitar vozes dissidentes. O relatório de 64 páginas foi produzido com base em documentos oficiais e entrevistas com 21 pessoas, incluindo jornalistas e ativistas.
A ex-ministra da Segurança Patricia Bullrich criou em julho de 2024 a Unidade de Inteligência Artificial Aplicada à Segurança, com amplos poderes para monitorar redes sociais e aplicar reconhecimento facial. Segundo a organização, a Argentina segue tendência global de Estados que ampliam o controle digital sobre cidadãos.
A expansão da vigilância na Argentina ocorre em momento estratégico: Milei enfrenta crescente resistência às suas reformas econômicas radicais enquanto busca consolidar poder. Os investimentos em tecnologia de monitoramento coincidem com a fase mais crítica do ajuste fiscal, quando os protestos tendem a aumentar.
O timing não é acidental. A criação da unidade de IA em 2024 antecedeu os cortes mais profundos em 2025, sugerindo planejamento preventivo contra a oposição social. Os drones e estações terrestres permitem resposta rápida a manifestações, criando um efeito dissuasório calculado.
Os atores implícitos são relevantes: Bullrich, ex-ministra da Segurança e figura histórica da direita argentina, implementou as bases do sistema antes de deixar o cargo. Seu legado é uma infraestrutura de vigilância que sobreviveu às mudanças ministeriais, indicando política de Estado mais que de governo.
Internacionalmente, a Argentina se alinha a um padrão onde governos de orientação neoliberal adotam ferramentas autoritárias para impor reformas impopulares. O caso argentino difere, porém, na velocidade da transformação: em dois anos, Milei conseguiu implantar um aparato que em outros países levou décadas.
O cálculo político é claro: o custo em reputação internacional é menor que o risco de perder o controle das ruas. Com a economia ainda frágil, a vigilância em massa torna-se o pilar invisível do projeto de Milei.