O teatro político por trás dos pedidos de impeachment contra Moraes
Debate sobre cassação mascara jogos de poder entre Executivo, Legislativo e Judiciário
O relatório da Polícia Federal sobre as trocas de mensagens entre o banqueiro Daniel Vorcaro e um número atribuído ao ministro Alexandre de Moraes reacendeu o debate sobre impeachment de ministros do STF. Há 66 pedidos no Senado, a maioria apresentada por bolsonaristas após Moraes condenar Bolsonaro por golpe de Estado. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, não autorizou nenhum até agora. A Constituição prevê processo no Senado por crimes de responsabilidade definidos na Lei 1.079/1950, como atos incompatíveis com a função ou exercício de atividade político-partidária. O rito é semelhante ao impeachment presidencial, com avaliação técnica da Advocacia do Senado antes de votação em plenário.
O debate sobre impeachment de Moraes esconde três jogos simultâneos. Primeiro, um ajuste de contas da bancada bolsonarista pelo papel do ministro na condenação do ex-presidente. Segundo, a hesitação de Alcolumbre revela o cálculo de quem sabe que abrir esse precedente pode atingir futuramente qualquer ministro - inclusive aliados. Terceiro, o timing é suspeito: as mensagens vazam quando Moraes investiga esquemas financeiros que atravessam o centrão. O STF como instituição perde, mas alguns atores específicos ganham: bolsonaristas alimentam sua base, o Senado sinaliza poder sobre a Corte, e os investigados por Moraes respiram aliviados com a cortina de fumaça. A espiral do silêncio aqui é clara: todos sabem que impeachment não prosperará, mas ninguém ousa dizer em voz alta que isso é apenas teatro eleitoral.