Parque Nacional do Pau-Brasil: entre o abandono e o crime
Com apenas uma fiscal, unidade de conservação enfrenta extração ilegal e violência
No sul da Bahia, a região conhecida como 'Costa do Descobrimento' é famosa por suas praias paradisíacas e resorts de luxo. No entanto, por trás desse cartão-postal turístico, há um cenário de conflitos complexos envolvendo disputas territoriais entre povos indígenas e fazendeiros, além de confrontos armados entre facções criminosas e a Polícia Militar da Bahia. Em meio a essa situação, três parques nacionais destacam-se: o Parque Nacional do Descobrimento, o Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal e o Parque Nacional do Pau-Brasil, que preservam fragmentos da Mata Atlântica.
Aline Polli, analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e chefe do Parque Nacional do Pau-Brasil, relata que os conflitos da região frequentemente transbordam para o parque. Grupos criminosos usam a área como rota de passagem ou para desovar corpos. Além disso, o crime ambiental, como a extração ilegal de madeira e a caça, é uma constante. Relatórios obtidos pela Agência Pública indicam que parte do pau-brasil utilizado por fabricantes de arcos de violino foi extraída ilegalmente do parque.
Apesar da importância do parque, reconhecido como Patrimônio Natural Mundial pela UNESCO, a equipe de fiscalização é mínima. Dos cinco analistas ambientais designados, apenas três estão em atividade, e Polli é a única fiscal. A equipe conta ainda com nove brigadistas terceirizados e, na maior parte do tempo, dispõe de apenas um veículo em funcionamento. 'É mata atlântica indo para o chão em pleno apocalipse climático', desabafou Polli.
A situação do Parque Nacional do Pau-Brasil revela um padrão de desinvestimento crônico em áreas protegidas no Brasil. A falta de recursos humanos e estruturais não é um acidente, mas resultado de uma política de prioridades que marginaliza a conservação ambiental em favor de interesses econômicos imediatos. A região da Costa do Descobrimento é um microcosmo dessa dinâmica, onde o turismo de luxo e o agronegócio dominam a agenda, enquanto os parques nacionais lutam para sobreviver.
O fato de Aline Polli ser a única fiscal em um parque de 19 mil hectares não é apenas uma falha operacional, mas um sintoma de uma estratégia mais ampla: a minimização da fiscalização ambiental permite que atividades ilegais, como a extração de madeira e a caça, continuem sem grandes obstáculos. Isso beneficia tanto os criminosos quanto setores que dependem da leniência do Estado para operar na ilegalidade.
Além disso, o uso do parque como rota de passagem e local para desova de corpos por grupos criminosos sugere que a área é vista como um território de baixo risco, onde a presença do Estado é mínima. Isso cria um círculo vicioso: a falta de fiscalização incentiva mais atividades ilícitas, que por sua vez reforçam a percepção de que o parque é uma zona de impunidade.
A sobrevivência do pau-brasil, espécie ameaçada de extinção, depende de uma mudança radical na priorização dos recursos públicos. Sem isso, o parque continuará a ser 'devorado em silêncio', como sugere o título da reportagem.