Varejo físico perde 46 mil vagas enquanto e-commerce avança
Juros altos e migração digital aceleram crise no setor que responde por 68% das vagas do comércio.
A investigação que a matéria não cobriu. Conexões, contexto histórico, fontes extras.
O comércio varejista eliminou 45,9 mil vagas com carteira assinada entre janeiro e junho de 2026, o maior corte para um primeiro semestre desde a pandemia. Enquanto o mercado de trabalho em geral gerou 921 mil empregos no período, o varejo foi o único setor que registrou saldo negativo, com perda de 3,5 mil postos. A Casas Bahia, que entrou em recuperação judicial em agosto, anunciou a demissão de cerca de 3 mil funcionários e o fechamento de 298 lojas. Segundo especialistas, o setor enfrenta uma 'tempestade perfeita': juros altos, economia enfraquecida, migração para o e-commerce e o impacto das apostas esportivas (bets) no consumo. A taxa de juros para pessoas físicas atingiu 64% ao ano em junho, enquanto os juros do cartão de crédito chegaram a 97,4% ao ano. O segmento de vestuário e acessórios foi o mais afetado, com corte de 30,9 mil vagas, equivalente a dois terços do total.
A demissão em massa no varejo reflete uma transição estrutural acelerada por políticas econômicas desalinhadas. Enquanto o governo celebra o emprego recorde em serviços e construção, ignora que o varejo tradicional está sendo espremido entre o avanço do e-commerce e o custo do crédito. A taxa de juros de 64% ao ano para pessoas físicas não é apenas um número: é um muro que separa o consumo de bens duráveis, como móveis e eletrônicos, da capacidade de pagamento da classe média. A Casas Bahia, ícone do varejo físico, não é vítima apenas da concorrência digital, mas também de uma política monetária que privilegia setores menos dependentes de financiamento. O corte de 30,9 mil vagas em vestuário e acessórios revela outro fenômeno: a migração do consumo para marcas digitais e plataformas globais, que operam com custos menores e sem a carga tributária local. O varejo físico, que responde por 68% das vagas do comércio, está sendo descartado como peça obsoleta em um tabuleiro que privilegia serviços e plataformas.