Milei propõe reforma eleitoral que elimina primárias e institui ficha limpa
Medida visa consolidar poder do governo e dificultar reorganização da oposição.
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A síntese editorial. Posição declarada. O que tudo isso significa.
O presidente da Argentina, Javier Milei, anunciou nesta terça-feira (21) que enviará ao Congresso uma reforma eleitoral que inclui a eliminação das eleições primárias obrigatórias (PASO), mudanças no financiamento de campanhas e a instituição de uma regra similar à Ficha Limpa brasileira. O anúncio foi feito via rede social, em letras garrafais, como é característico do estilo comunicativo do presidente. Milei justificou as mudanças como uma forma de acabar com o financiamento das eleições internas da 'elite' política e de expulsar funcionários corruptos. A proposta vem sendo negociada no Congresso há semanas, com o governo considerando inicialmente deixar parte do financiamento para um segundo momento e tornar as PASO optativas, mas essas ideias foram descartadas no projeto final. Desde as eleições legislativas de meio de mandato em 2025, o partido de Milei, A Liberdade Avança, aumentou significativamente sua representação no Congresso, com quase 40% das cadeiras na Câmara e 21 dos 72 senadores, o que tem facilitado a aprovação de medidas polêmicas, como a reforma trabalhista e a redução da maioridade penal. No entanto, a eliminação das PASO, criadas durante o governo de Cristina Kirchner em 2011, tem enfrentado resistência devido às disputas internas dos partidos e ao temor de que a mudança possa neutralizar a oposição.
A reforma eleitoral proposta por Javier Milei não é apenas uma medida técnica, mas uma estratégia política cuidadosamente calculada para consolidar o poder de A Liberdade Avança. A eliminação das PASO, embora justificada como um corte de custos, serve principalmente para simplificar o processo eleitoral em favor do partido governista, que já tem um candidato claro para a Presidência: o próprio Milei. Ao eliminar as primárias, o governo reduz a capacidade de organização e competição da oposição, que poderia se fragmentar em múltiplas candidaturas. A mudança no financiamento de campanhas, por sua vez, mira enfraquecer os partidos tradicionais, que dependem historicamente de recursos públicos e privados. A introdução de uma regra similar à Ficha Limpa brasileira pode ser vista como uma tentativa de purgar adversários políticos sob o pretexto de combate à corrupção. O timing da proposta é crucial: com uma base parlamentar ampliada após as eleições de 2025, Milei busca aproveitar a janela de oportunidade para implementar mudanças estruturais que dificultem a reorganização da oposição antes das próximas eleições presidenciais. A resistência ao projeto, no entanto, não é trivial: as PASO foram criadas para resolver disputas internas partidárias, e sua eliminação pode gerar conflitos tanto dentro como fora do partido governista.